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Capítulo 1: Dr. Elias

Elias acabara de ter sua tese de doutorado aprovada na Unicamp. Apesar de ter estudado por quase três anos, seu trabalho de pesquisa correspondia a quase uma vida inteira de estudo e também à vida pessoal. Tudo aquilo que aprendeu durante esses anos estava resumido em algumas centenas de páginas, contendo gráficos, equações e citações de autores consagrados da sua área, que ele certamente nem conhecia.

A apresentação de defesa, assim como todas as outras, era algo quase automático nessa etapa. Raramente um estudante era reprovado, pois isso também recairia sobre seu orientador. Portanto, mesmo tendo um título importante, era apenas mais um procedimento burocrático, cuja importância ele mesmo questionava.

No auditório, a tese encadernada ficou na mesa, ao lado do notebook. Elias abriu o arquivo, falou e passou os slides. Quando alguém franziu a testa diante de um gráfico, ele voltou dois cliques e apontou a curva, repetindo o que a página já dizia.

A pergunta demorou a sair. Foi sobre uma equação no meio de um slide. Elias explicou de novo, devagar, com o ponteiro do mouse em cima do termo que tinha gerado a dúvida. Quem perguntou anotou uma linha, assentiu e não insistiu. Depois veio um número numa tabela. Ele mostrou a linha. O número era o mesmo do slide. Elias ficou de pé ao lado do notebook enquanto olhavam o impresso. Uma página foi marcada a lápis e, logo em seguida, a marca sumiu. A cadeira rangeu. Alguém passou à página seguinte. O interesse acabou ali.

Ele olhou o relógio na lateral. Tinha se passado cerca de uma hora entre explicações e aquelas poucas perguntas. Recolheram as folhas e assinaram o que havia para assinar, sem pressa e sem festa. Alguém agradeceu, disse que estava aprovado e já fechava a pasta. Ninguém pareceu surpreso. Elias encaixou a tese debaixo do braço, desligou o projetor e saiu. O cabo ainda estava morno na mão.

Lá fora, a tarde estava pesada e úmida, com nuvem escura por cima do campus.

Elias agora podia se gabar de ser chamado de doutor. Era o fim de uma fase para ele. Nunca dei muita bola para títulos, mas ser chamado de doutor até que não é ruim.

Ao chegar em casa, deixou a pilha de anotações e sua tese encadernada junto a uma pilha de livros que havia pegado da biblioteca do instituto de física, que por sinal estavam todos com a entrega vencida há semanas. Ninguém nunca cobrou realmente, era como se a biblioteca tivesse esquecido deles.

No dia seguinte, às 7, Elias estava de volta ao mesmo turno na subestação Lix da Cunha. O doutorado não tinha mudado o horário nem o serviço.

Mais um dia de trabalho

O dia começava cedo. Às 7 em ponto Elias já chegava à subestação Lix da Cunha. Seu trabalho era bem simples, e qualquer pessoa com mínimos conhecimentos em informática seria capaz de fazer isso. Monitorar painéis, verificar equipamentos e registrar dados sobre a distribuição de energia elétrica.

Apesar dos equipamentos de monitoramento serem ultrapassados, Elias havia criado um pequeno sistema de automação que monitorava todos os eventos de falha, como níveis de tensão, corrente e potência. Um sistema que o supervisor nem sabia que existia, pois estava rodando em um computador antigo que estava para ser descartado.

Naquela manhã ele ligou esse computador antes de olhar a parede de painéis. A máquina ficava num canto, com a tela virada para quem já soubesse que ela estava ali. Demorou a acordar, fez barulho de disco e abriu a janela de sempre: linhas de texto, sem enfeite. Elias ainda puxava a cadeira quando o programa apitou.

Uma linha nova. Queda de tensão num alimentador, curta, já em recuperação. Embaixo, a corrente tinha ido junto e a potência também, os três números na mesma fração de segundo. Ele se virou para os instrumentos oficiais. Os ponteiros continuavam parados. Esperou, de pé, com a mão na cadeira. O alarme da parede só acendeu depois, um pisca atrasado, quando na tela do canto a tensão já tinha voltado e a corrente também.

Elias anotou horário, valores e duração no registro, do mesmo jeito de sempre. Se alguém perguntasse, a resposta cabia no painel. O painel é que tinha perdido o começo. Ele conferiu se a janela do computador não estava grande demais e deixou como estava, pequena, no canto. O que vai para o lixo apita primeiro. O painel só assiste.

Depois do registro, a manhã voltou ao que era. Elias percorreu os painéis, copiou os números e checou os equipamentos um a um. O computador do canto ficou quieto, com a tela pequena, exatamente como antes do apito.

O rádio da sala falou em temporal para a noite, e a carga nos alimentadores já vinha instável.

Na semana passada Elias tinha conseguido uma caminhonete emprestada. O UVX, primeira fonte de luz síncrotron do Hemisfério Sul, a máquina antiga do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, o LNLS, em Campinas, batizada porque ia do ultravioleta ao raio X, fora desativado para dar lugar ao Sirius, e uma porção de equipamento ia para o sucateamento. Muitas peças ainda tinham valor para alguém que soubesse como utilizá-las.

Foi à noite. O portão por onde a sucata saía estava aberto, e o que sobrara do descomissionamento já estava separado num pátio. Elias encostou a caminhonete de ré. Aço inoxidável, cabos, caixas sem tampa. Não fez lista. Pegou o que ainda fechava, o que não estava amassado demais, o que uma pessoa sozinha conseguia erguer.

O primeiro tubo bateu na lateral da caçamba. Ele girou, empurrou com o ombro e voltou à pilha. Um conector veio fácil. Um trecho de câmara, não. Teve de arrastar até a beira, levantar um lado e deixar o outro cair na caçamba. O baque subiu pelo braço. Havia mais cabo do que parecia. Enrolou, amarrou com uma corda que já estava no carro e fez outra viagem, e depois outra. A pilha no chão diminuiu. A suspensão desceu um pouco. Uma caixa grande, torta, não cabia e ficou onde estava, junto com o resto, à espera do sucateamento. Elias fechou a tampa da caçamba, testou o nó da corda e foi embora.

Como no laboratório da empresa de energia ainda existiam diferentes ferramentas, ele tinha tudo o que precisava para construir.

Cápsula Experimental 1

Já eram 21 horas e Elias ainda continuava montando uma espécie de cápsula, reunindo as peças de aço inoxidável que encaixavam como peças de Lego desgastado, mas suficiente para blindar eletricamente qualquer coisa que ele colocasse dentro.

Lá fora, o vento batia no telhado, a chuva tinha começado, e a luz do laboratório piscou uma vez.

A primeira parte estava pronta.

Lembra uma batisfera de ferro-velho. Só que, em vez de descer ao fundo do mar, vai ficar parada numa bancada em Campinas.

Agora ele já podia ligar a bomba de vácuo para testar a estanqueidade da cápsula. Sem nenhuma cerimônia, Elias ligou os fios diretamente na tomada 220V mais próxima. Tssssssssss…

Droga, preciso tapar esses malditos buracos!

Com a fita isolante e um pouco do que havia restado da fita silver tape, Elias fechou as quatro frestas que encontrou. O chiado mudou de lugar. Saiu de uma emenda, apareceu noutra, e ele cobriu essa também, apertando com o dedo até o chiado baixar. Depois de mais alguns testes, finalmente ele escutou. Silêncio, é isso. Mas vamos testar de verdade agora.

Procurando dentre outros materiais de sucata, Elias finalmente encontrou o vacuômetro. O ponteiro marcava pouco menos de 1 bar, cerca de 0,93, o que batia com Campinas. Ao lado da cápsula, fechado com silver tape também.

Desta vez, a bomba de vácuo ficou ligada o dobro do tempo anterior. O ponteiro saiu dos 0,93 bar e desceu devagar. Elias ficou ao lado, ouvindo o ronco da bomba, sem mexer em mais nada. No meio do caminho o ponteiro parou. Ele deixou a bomba terminar o tempo mesmo assim. O ponteiro não desceu mais. A fita segurava o que dava, e o que dava não chegava perto de zero. Para fita, está ótimo. Zero fica para outro dia.

Falando com as Correntes

Um ponto crucial do estudo da tese de Elias era a capacidade que as correntes elétricas possuíam de prever interrupções de suas cargas. Assim como em nossas casas, quando uma lâmpada oscila, a impressão é de que a energia está prestes a ser cortada. Numa rede de 127/220 V, comum em Campinas, a perda de uma fase muitas vezes anuncia a perda da outra e, com ela, o apagão total, às vezes com margem de segundos ou minutos. No entanto, o que Elias também descobriu é que existiam certas nuances eletromagnéticas, ou seja, pequenos pacotes de informações dentro da própria corrente que tinham o mesmo papel.

Elias lembrava bem das suas aulas de eletrotécnica, em que o professor comentava o quanto era difícil sincronizar o sinal elétrico vindo da rede com o outro sinal vindo de um gerador. Esse casamento de frequência levava algum tempo, pouco na escala humana, mas o suficiente para serem necessários bancos de baterias nesse ínterim, para complementar a carga. Dependendo da carga, as baterias necessárias eram enormes.

Um grande desafio nessa área de fornecimento de energia para sistemas críticos era saber quando a próxima interrupção ocorreria. Assim, o sistema redundante anteciparia o sincronismo de fase e eliminaria a necessidade de baterias.

Durante a tese, algumas medidas tinham saído sem correlação com a carga. O orientador não soube explicar, riscou o gráfico e disse: “Isso aqui é erro, tira. Equipamento velho.” O único jeito de isolar esses erros seria uma cápsula de vácuo, a Batisfera, mas ele não se interessou. Preferiu apressar a defesa e encerrar a tese.

Como as correntes envolvidas eram grandes, era necessário o acesso à rede de alta potência, coisa que Elias nunca conseguiu fazer de um laboratório. Foi essa obstinação que o trouxe até aquela noite.

Os pacotes de informação eletromagnéticos somente eram detectados num ambiente de pressão zero, pois sem o ar ao redor não havia ionização, nem o efeito corona, que cria um ruído elétrico por cima do que se conhecia como sinais precursores, sinais que também antecipavam essas interrupções. O que Elias descobriu é que existia mais uma informação escondida.

O Experimento

Já eram 2h24 da manhã. Ao redor da bancada havia umas três latas de Monster Juice Rio Punch abertas e sacos de batata frita pelo chão. Estou quase lá.

A chuva seguia no telhado, e um trovão soava longe.

Elias conectou, na entrada da cápsula que ele agora chamava de Batisfera, por passamuros aproveitados do UVX para o vácuo se manter, duas fases de 127 V e fez a corrente percorrer o interior, saindo do outro lado. Para que a corrente pudesse circular, ele ligou uma TV antiga de tubo de raios catódicos. Na entrada, espaçou dois metros dos cabos e conectou a um contator elétrico para desligar. Do outro lado da Batisfera, ele ligou outro contator com energia de outra fonte.

A ideia por trás deste experimento era simples: quando Elias ligasse da fonte principal, a energia percorreria pela Batisfera até a TV ser ligada. Depois, ele desligaria manualmente. O ponto-chave era quanto tempo levaria para a Batisfera identificar a interrupção. Para poder medir adequadamente, Elias colocou um circuito sensível o bastante para detectar o pacote de informação no vácuo, acionar uma luz e registrar em nanossegundos, num contador de tempo aproveitado da eletrônica de sincronismo do UVX, quando fosse ativado.

Quase que de forma mágica, quando Elias tinha a intenção de desligar a fonte, a luz acendia e o display de 7 segmentos marcava 85 nanossegundos antes de o contator abrir: o sinal chegava 85 nanossegundos adiantado. O curioso era que, quando ele apenas encostava a mão no interruptor, não acontecia nada, mas, quando ele realmente planejava desligar, a luz acendia de novo, sempre 85 nanossegundos antes do corte. Obviamente, o tempo de resposta do outro contator demorava mais do que isso para acionar, mas era o suficiente para antecipar a comutação e evitar a interrupção de luz.

Elias repetiu o teste, desconfiou dos instrumentos, trocou um cabo e zerou o contador. Erro de equipamento velho. O resultado continuou em 85 nanossegundos. Isso não mede a rede. Isso mede a mim. Ficou testando até o dia amanhecer.